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sem-fim

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A uma escala abstracta, o conceito de ”fim” podia ser o cessar de um acontecimento, mas não será antes um compasso de espera para um novo começo? Não será antes o ritmo normal dos acontecimentos que se sucedem uns aos outros, numa (des)continuidade assumida? Que vazio oco, cheio de ausência, seria se o fim fosse um fim em si mesmo e, de repente, tudo acabasse como um esbarrar cru e doloroso numa parede vazia, sem amanhã.

A noite, esse acabar de um dia… não é mais do que uma interrupção da continuidade da luz do sol, que está lá sempre… resulta apenas da rotação da Terra. Pode tapar-se a luz que entra a jorros por uma janela, com uma cortina escura, mas não pode tapar-se a escuridão com uma cortina de luz… porque a escuridão não é uma entidade própria, mas uma ausência temporária da presença da luz, que não tem fim.

A uma escala mais concreta e quotidiana, o conceito de ”fim” podia significar também atingir um objectivo, uma meta … mas isso levar-nos-ia ao primeiro caso, pois sendo cada objectivo um pequeno acontecimento que acaba, assim que atingido, o processo daria lugar a novos objectivos.

É próprio do ser humano aspirar a mais, para isso foi criado, e essa ânsia de mais, ardente e por vezes serenamente (in)contida apenas pode descansar no autor desse fim que ao mesmo tempo desejamos e não-desejamos…, nesse autor que, abarcando todos os nossos fins, não tem em si mesmo fim, é eterno… e percebemos então outro conceito de “fim”, esse desígnio de infinitude, a que fomos chamados, e ao qual responderemos, como seres livres e pensantes. O nosso fim, assim, não é um fim, mas um meio para chegar à eternidade, a esse Deus que há, que é, esse Deus sem-fim.

FELIZ PÁSCOA!!!

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o homem frio de pedra

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Ali estava deitado no chão, e ao lado o seu cão, fiel companheiro de todas as horas, mesmo destas. Hirtos, inermes, frios, de pedra. Bateria talvez a claridade do sol durante o dia, mas ajudavam as luzes a que parecesse terem alguma vida. Poderia imaginar pessoas que passassem e parassem a olhar. Durante a noite, ficavam as luzes de presença por companhia, e todo o espaço era seu. Ainda assim, assim se quedavam hirtos, inermes, frios, de pedra, porque de pedra eram, mas de noite a sua companhia era outra, sem pessoas que passassem e admirassem a obra de autor, belíssima escultura, aliás. Do lado de fora de todo aquele espaço que era seu, que mais não era que uma vitrine, um grande vidro do lobby de uma grande empresa, estava ao frio da noite, quase hirto, quase inerme, com frio, mas não de pedra, um sem-abrigo e o seu cão.

Primeiro, o choque pelo contraste da situação. A realidade de uma vida, de um coração quente, do lado de fora, e a existência de uma estátua, de coração frio, do lado de dentro, um homem deitado no chão e o seu cão. A seguir, dizer “boa noite” com carinho, dar o saquinho de comida dessa noite, e falar… do que fosse, do que quisesse, fazer companhia, estar ali…

Era 6ª Feira Santa, e era a primeira vez que ia num grupo de voluntários, numa associação que distribui comida a pessoas que estão a viver na rua. Tinha ligado a perguntar se podia ir fazer essa experiência, e enquadraram-me numa das voltas dessa noite. Explicaram-me a organização da volta e como proceder, mas não me explicaram o que iria aprender com isso, porque para isso não há palavras … que encham a alma…é só ir.

Foi longa a volta, e dura… muito dura. Os voluntários com quem eu ia eram já experientes nessas andanças e tinham já uma relação de amizade com as pessoas que iam ajudar; naquela noite tinham que levar um blusão para o senhor X, que estava a passar muito frio, um outro precisava de cobertor, outra, de uns sapatos… sabiam-se mutuamente os nomes… tratavam-se com carinho, uns e outros… e eu olhava e ia assimilando, na medida do possível.

Naquela noite, quando me preparava para ir, ia pensando no que podia dizer, e que mensagem gostaria de lhes transmitir, por ser época de Páscoa. Imbuída de um espírito de matriz cristã, tinha pensado desejar a cada um os votos de uma Boa Páscoa, mas na realidade foi-se-me esbatendo esse objectivo, talvez por receio de algum me retorquir qualquer coisa como: “acha que posso ter uma boa Páscoa, a dormir aqui ao frio?!”, e calei-me.

Chegámos a um dos últimos pontos daquela volta, e dois ou três voluntários fomos ter com dois vultos que estavam estendidos no chão, num vão de uma entrada. Uns cartões assentes no chão de mármore faziam de colchão, eventualmente um velho saco-cama ou um cobertor seriam o aquecimento que tinham, e caso chovesse, dificilmente não se molhariam. Dirigi-me a uma das pessoas, que se soergueu, e ficou sentada à minha frente. Apresentei-me e começámos a falar. Era um jovem, de cabelo encaracolado, andaria talvez pelos vinte e poucos, ou talvez menos, que a vida de rua apressa a idade. Dei-lhe o saquinho da comida, e perguntou-me o que tinha dentro o pão. Disse-lhe que eram duas sandes com doce, uma peça de fruta e leite (e não lhe disse que os donativos não tinham sido muitos e que naquele dia não tinha dado para mais). Tirou uma das sandes e foi confirmar. “Eu não lhe ia mentir”, pensei, sem perceber. Ao mesmo tempo, justificou: “eu não percebo como é que há pessoas que hoje comem carne!”. Estarreci, e caso eu não tivesse percebido bem, repetiu as mesmas palavras: “eu não percebo como é que há pessoas que hoje comem carne!”; mas eu tinha percebido à primeira, tinha percebido muito bem, até bem demais. Tinha percebido que aquele homem que ali estava ao frio quis, por amor, fazer o mesmo jejum e abstinência de 6ª Feira Santa que outra pessoa, no quente da sua roupa e casa, faria. Embatuquei. Não sei de que falámos, nem se falámos muito mais do que algumas frases, até porque eu tinha ficado em estado de não dizer coisa com coisa. Estava de cócoras, ou talvez de joelhos, à sua frente, e os nossos rostos estavam à mesma altura, uma vez que ele se encontrava sentado no chão, mas na realidade poderia curvar-me ante a envergadura desse homem, inteiro, completo, que conseguia manter na adversidade os princípios em que acreditava, e que percebia que o verdadeiro jejum era a doação de si próprio, nas circunstâncias que fossem.

Frente a frente, pude dizer-lhe em letras grandes: “BOA PÁSCOA!”, e ele, com propriedade, respondeu com letra cheia: “BOA PÁSCOA!”.  

 

Cheguei a casa e bebi uma caneca de leite quente. Em paz.