Tag Archives: família

e tu…

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Pinga, pinga, da janela, do beirado, do telhado,

a chuva chega finalmente, de repente,

o frio regressa, instala-se sem pressa,

o vento entoa um assobio, desafinado.

 

E tu, que atravessas a rua cheia de poças

de água turva e lamacenta,

mostras nesse sorriso

tosco, rude e ternurento

por me ver, tudo o que preciso.

E a vida inteira suspensa

no abrigo desse olhar

descansa agora da correria

e o tempo da chuva já não importa

neste tempo que vai brilhando devagar.

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a corda da roupa

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Meias, meias, meias, mais meias, o pé 41 do Ricardo, o meu 39, o 26 da Inês e estas mini do bebé. E pensar que o meu marido e eu nos aborrecemos hoje de manhã por causa de umas meias… E ficámos assim, a meio da conversa, a meio do bom humor, a meio do que vale a pena.

Enquanto as estendo, olho para o vizinho de baixo que rega as plantas no seu quintal. Viúvo. Penso se alguma vez terá discutido por causa de umas meias. Talvez sim. Mas, pensando na sua mulher, no seu sorriso que recordo como doce e sempre atento aos pormenores, não me parece que alguma vez tenha discutido por causa de umas meias.

Deixo cair uma meia azul da Inês que, apanhando uma brisa momentânea, se instalou perto da roseira que o Sr. António regava. Olhou para cima, e sorriu, e parecia quase-quase o sorriso doce e sempre atento que tinha a sua mulher. “Sabe, agora fez-me lembrar uma coisa… uma vez a minha mulher aborreceu-se comigo por causa de umas meias… veja lá, por causa de umas meias, imagine… que saudades tenho dela, até desse episódio das meias. Éramos novos, e ainda dávamos importância às meias. Mas, olhe, na realidade, tudo vale, e o que nós nos rimos depois com isso das meias”.

“Ah, sim … pois… hum… às vezes há assim coisas dessas, mas tudo passa…, eu já aí passo a buscar a meia…”. Embatuquei. Pensei novamente no sorriso doce e atento aos pormenores que eu recordava, e dei-lhe mais valor. Porque era um sorriso maduro, um sorriso que resultava do delapidar de muitas coisas, um sorriso que resultava do limar de arestas, um sorriso que queria mesmo ser sorriso, ser doce, e ser atento aos pormenores. Que era o sorriso que o Sr. António também agora tinha.

Lembrei-me de fazer um jantar que fosse prático, para o Ricardo não gastar depois muito tempo a arrumar a cozinha, e poder ter tempo para ver um episódio completo da sua série favorita. Seria um mimo, um “pequeno pormenor” e, à minha maneira, pedir desculpa pelo episódio das meias.

Toca o telemóvel, e era o Ricardo a dizer que logo saía mais cedo, ia buscar a Inês à escolinha, e depois apanhava-me em casa, e ao bebé, para irmos ao jardim, e comer um gelado. Era um mimo, um “pequeno pormenor” e, à sua maneira, pedir desculpa pelo episódio das meias.

Talvez fosse esta a nossa maneira de irmos arranjando o nosso sorriso doce e atento aos pormenores, talhado nos pequenos incidentes do dia-a-dia.

Logo, quando saísse, iria buscar a preciosa meia azul com o desenho do monstro das bolachas, que a tia tinha oferecido nos anos à Inês. Tinha sido uma epopeia convencer a Inês que o monstro das bolachas só come bolachas e não pés, mesmo quando está com a boca aberta estampada nas meias, mas agora, que essa situação estava resolvida, eram as suas meias favoritas, e nem pensar em perdê-las, senão era uma cena…

Meias… monstros das bolachas… sorrisos… pormenores… Ricardo… eu…

Joaquim e os morangos

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Já ia a sorrir, ao dirigir-se à varanda… estava em pulgas para ver a reação da Matilde… ela, que adorava surpresas…! Podia já antever a sua alegria, quando fosse ao frigorífico e deparasse com os seus apreciados morangos, …frescos… como um bálsamo face aos 35ºC que se previam para hoje, …vermelhos… como o estúpido baton que às vezes ela punha e ele detestava, …doces… como quando ela às vezes conseguia reter por alguns segundos a primeira palavra que lhe ia sair de rompante…

Para que percebesse logo a ideia, ia colocar à frente da taça um letreiro, a dizer: “Eco-morangos, produzido por Joaquim A., varanda do 2º direito”. Pensou nesta surpresa um dia ou dois depois de ela ter partido para esta viagem mais comprida (tão custosamente comprida… mas então, era o trabalho dela…), o que foi mesmo a tempo, deu para os morangos crescerem.

Esta surpresa ela nunca adivinharia! Podia ter ido comprar os morangos ao supermercado, é verdade, mas estes tinham mais valor. Plantara-os na varanda com todo o cuidado, tinha pesquisado na net como fazer, como tratar, como regar… e agora até isso o fazia sorrir… sim, o amor também se trata, e rega, e alimenta… era assim que faziam um ao outro. Podia parecer um gesto banal, ter uma taça de morangos à espera da sua mulher, mas, no entanto, só ela sabia o que significava este gesto, feito por uma pessoa que não poderia apreciar menos essa fruta… só ela daria valor a esta singela taça de morangos…

Já tinham passado por várias etapas, gestos “assim-não”, “assim-assim”, e “assim-sim”, e ele tinha a certeza deste gesto, e de como lhe iriam brilhar os olhos de emoção e reconhecimento, e carinho…

Riu-se gozosamente, enquanto se arranjava para ir ao aeroporto… hoje alimentava-se a morangos, este amor.

Fátima

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No teu coração repousam os nossos pés

cansados das horas gastas

doridos dos caminhos bem e mal andados

 

No teu coração repousam os nossos pés

apressados do dia-a-dia

de tropeços e alegrias

 

No teu coração repousam os nossos pés

certos da incerteza dos caminhos

mas seguros pela tua mão

 

No teu coração repousam os nossos pés

aí descansamos…

 

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escultura de Cristina Rocha Leiria (peça exposta no Santuário de Fátima)

http://www.fatima.pt/pt/pages/exposicoes-temporarias

http://serosegredodocoracao.fatima.pt/fichatecnica.php

o recorte

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e foi isso que te valeu, o perceber que o amor é o mais forte dos sentimentos… foi isso que te permitiu não encarquilhar o coração…

… como encarquilhados estão a ficar os teus dedos, agora que lavas a louça que ficou de ontem…

e pensas irónica e (des)prosaicamente que o amor parece um bom detergente concentrado, basta uma gota, e todo o sujo desaparece…e isso faz-te pensar em todo o mal que já te aconteceu, em todas as coisas más que já te fizeram…e que, afinal, com uma gota de amor desaparecem… diluem-se, dissolvem-se, desarticulam-se as suas ligações químicas, desvanecem-se, deixam de existir…

vais preparando o pequeno-almoço para as duas.. ela hoje levanta-se um pouco mais tarde… as aulas são só às 9h… tens ainda tempo para recortar um coração, num folheto de supermercado que estava na bancada, que lhe colocas ao pé da caneca do leite, na mesa que lhe deixas pronta…

deixar-lhe um “coração de folheto”, mesmo tendo apanhado a parte dos cremes anti-rugas (e talvez sobretudo por isso) vai ganhar o primeiro sorriso da manhã à tua filha adolescente… e sabes que depois te vai mandar uma mensagem a dizer “também gosto muito de ti!” ou um “bom dia” (mesmo apressado)… é assim que a ensinas a amar…

… aprendeste há muito que são os pequenos gestos de amor que alimentam o coração, e sabes que se tiver boas referências vai ter um coração forte, que aguente embates de águas turvas e desgostos… e o amor alimenta mais amor…

… bem basta o que se passou contigo… mas já passou… tu tens mais amor do que isso!…

… uma última olhadela ao espelho, antes de sair de casa… e ficas feliz porque as rugas que vais tendo não te chegam ao coração…

Miguel e o mundo

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– Dorme bem, Miguézito; queres que o pai deixe aqui a Terra?

– Sim, papá, deixa o mundo a dormir ao pé de mim…

– Vá, então conta-lhe tu uma história para ele adormecer…

– ‘Tá bem, papá, eu tomo conta dele…

……………………………………………………………..

– Boa noite mundo, vamos dormir?… Gostei quando o papá te deu a mim… o papá esteve fora e trouxe-te… primeiro, dentro do papel, pensei que era uma melancia, daquelas que há em casa da avó Joaquina…, mas depois o papá disse: “vou-te dar o mundo”… disse: “o papá vai-te dizer onde esteve, vai-te mostrar onde está a nossa casa, e também o sítio para onde vamos morar”. O papá disse que esteve na China, onde as crianças parece que têm os olhos mais fechados, mas vêem tudo bem. Na minha sala há uma menina assim, chama-se Xiao Ma. Depois, o papá indicou onde está o nosso país, e o sítio onde vivemos…; percebi, mas não percebi bem como é que num sítio tão pequenino, castanho, cabe a nossa garagem, e também o meu quarto… mas o papá sabe. Estivemos depois a ver para onde vamos morar, fica num sítio grande, amarelo, chamado África, e lá os meninos têm uma pele mais escura. Também há um menino assim na minha sala, chama-se Malik…; … mas… não percebo uma coisa… tu tens muito azul, e o papá diz que é o mar, muito grande… mas se o mar está sempre ao pé da nossa casa, como é que está também na China, no sítio onde o papá esteve, e também está no sítio para onde vamos? Vai de cá para lá, e volta?!… amanhã pergunto ao papá…;

… dorme bem, mundo!

… ah, já me esquecia de te dizer, amanhã vem cá a avó Joaquina… deve trazer pudim!

 

 

Ecoparque Sensorial da Pia do Urso/ Pia do Urso Sensory Eco-Park

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A poucos quilómetros de Fátima localiza-se o “Ecoparque Sensorial da Pia do Urso”, concebido especialmente para invisuais, permitindo que todas as pessoas possam apreender o meio envolvente, utilizando sobretudo os sentidos do tacto, do olfacto e da audição.

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mapa do percurso

O trajecto pedestre do parque está devidamente assinalado no solo, garantindo aos utentes a segurança necessária para efectuar o percurso.

 

Existem vários pontos de paragem, com estações temáticas tácteis, como por exemplo o “Jogo do Galo”, o “Planetário”, a “Estação Musical”. Em cada estação, existe a devida informação em braille.

Este ecoparque situa-se numa antiga aldeia de casas serranas, encontrando-se bastantes em recuperação.

A designação “Pia do Urso” remete para as covas naturais existentes no terreno, num imaginário relacionado com ambiente de verde vegetação e a eventual longínqua existência de um urso que por ali se iria refrescar numa pia de água.

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Se bem que alguns dos equipamentos merecessem já a devida recuperação, a visita ao parque vale bem por diversos aspectos, desde a sua inovadora concepção, até ao usufruto do ambiente natural. Como ponto de início e de informação, sugere-se a visita ao Centro de Interpretação da Pia do Urso; em complemento, existe também o Centro de BTT da Batalha – Pia do Urso (http://www.descobrirbatalha.pt/#btt). Poderão ser obtidas mais informações através do Turismo do Centro (http://www.turismodocentro.pt).

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raízes

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… percebia agora porque é que, em certos contextos, “casa” e “família” se escrevem com o mesmo caracter, em mandarim… engraçado aquele garatujo, como se fosse um pequeno telhado com raízes. Difícil de desenhar, como difícil é construir uma casa, e uma família. Porque “uma família é uma casa com vida interior”, lá lhe dizia sabiamente a sua avó! Que as paredes não seguram só o telhado… seguram fotos de pessoas de quem gostamos, e aguentam boladas quando se erra a porta, e abafam choros de luto, e fazem ressoar gargalhadas de primavera… e têm janelas que permitem sonhar com o mundo, e portas para o ir procurar… e regressar… às raízes. Fortes, de glicínia, ou a aguentar marés, como num tarrafe, mas raízes, que nos dão estrutura, e nutrem… o resto vem depois, os embates, as quebras de ramos nalgum vendaval, o aparar dos galhos secos, mas a estrutura está lá…

Ia hoje voltar a casa, depois de mundos corridos, e revezes grandes… e por destinos de ventos cruzados ia a uma entrevista para trabalhar num restaurante, no local onde antes tinha sido a sua casa. Sobre técnicas, sentia-se bastante seguro, mas tinha medo que as emoções tomassem a dianteira, se lhe fizessem perguntas mais pessoais… e quando lhe perguntam sobre casa e família, conseguiu com arte disfarçar e lembrou-se dos momentos em que tinha aprendido a cozinhar com a sua avó e conseguiu gracejar dizendo que as maçãs com lagarta têm vida interior (crocante, se bem assadinhas), e que a sua família tinha sal q.b.. Fosse por estas razões, ou outras mais relacionadas com o ovo escalfado no ponto e os mexilhões, na segunda-feira começava a trabalhar…

Finalmente, o que aprendera em família tinha agora sentido. E sentiu então que tinha voltado a casa, às suas raízes…

meu neto…

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Meu neto…

…chamo-te assim…

Deu-me ontem a notícia a tua mãe, quando me veio visitar. Não veio cá muito, nestes 5 anos que já aqui passo, mas não posso censurá-la por isso; tenho é que agradecer-lhe ainda vir uma vez por ano… Mas ontem, foi uma despedida. Veio dizer-me que vai mudar de país, por razões profissionais do teu pai, e que será muito difícil voltar a ver-me…; e, sobretudo, veio dizer-me que nasceste há poucos dias… mostrou-me uma foto tua, que guardou rapidamente, não fosse o meu olhar profanar essa candura…  nem me quis dizer o teu nome…mas só o saber que nasceste faz-me dar mais valor a cada dia que aqui vou passar …

Saio daqui a 20 anos (!) … quando estiveres na idade em que achas que o mundo é todo teu… e embora provavelmente nunca te possa dizer estas coisas ombro-a-ombro, em confidência de avô, escrevo esta carta à tua mãe, na esperança que ela ta possa dar, quando fizeres 20 anos. Se ela nunca te disser que estou preso, não lhe leves a mal, os crimes que cometi são indizíveis, e percebo que ela queira criar raízes novas…

Gostaria apenas de te dizer, se te servir de consolação pela tristeza de teres um avô assim, que já me arrependi muito, muito, muito, de tudo o que fiz, que mereço cada dia que aqui passo…

Estando preso, gostaria apenas de te falar da verdadeira liberdade…que está em saber escolher… é que não somos obrigados a seguir o caminho dos outros, podemos escolher, mesmo as pequenas escolhas do dia-a-dia, e eu não percebi isso a tempo…usei mal a liberdade com que nasci, com que nasce qualquer criança, como tu agora nasces…livre;

Por favor…Não Estragues Tudo, Ouviste? … como o teu avô!

Nunca É Tarde, Ouviste?!