Tag Archives: amanhã

raízes

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… percebia agora porque é que, em certos contextos, “casa” e “família” se escrevem com o mesmo caracter, em mandarim… engraçado aquele garatujo, como se fosse um pequeno telhado com raízes. Difícil de desenhar, como difícil é construir uma casa, e uma família. Porque “uma família é uma casa com vida interior”, lá lhe dizia sabiamente a sua avó! Que as paredes não seguram só o telhado… seguram fotos de pessoas de quem gostamos, e aguentam boladas quando se erra a porta, e abafam choros de luto, e fazem ressoar gargalhadas de primavera… e têm janelas que permitem sonhar com o mundo, e portas para o ir procurar… e regressar… às raízes. Fortes, de glicínia, ou a aguentar marés, como num tarrafe, mas raízes, que nos dão estrutura, e nutrem… o resto vem depois, os embates, as quebras de ramos nalgum vendaval, o aparar dos galhos secos, mas a estrutura está lá…

Ia hoje voltar a casa, depois de mundos corridos, e revezes grandes… e por destinos de ventos cruzados ia a uma entrevista para trabalhar num restaurante, no local onde antes tinha sido a sua casa. Sobre técnicas, sentia-se bastante seguro, mas tinha medo que as emoções tomassem a dianteira, se lhe fizessem perguntas mais pessoais… e quando lhe perguntam sobre casa e família, conseguiu com arte disfarçar e lembrou-se dos momentos em que tinha aprendido a cozinhar com a sua avó e conseguiu gracejar dizendo que as maçãs com lagarta têm vida interior (crocante, se bem assadinhas), e que a sua família tinha sal q.b.. Fosse por estas razões, ou outras mais relacionadas com o ovo escalfado no ponto e os mexilhões, na segunda-feira começava a trabalhar…

Finalmente, o que aprendera em família tinha agora sentido. E sentiu então que tinha voltado a casa, às suas raízes…

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meu neto…

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Meu neto…

…chamo-te assim…

Deu-me ontem a notícia a tua mãe, quando me veio visitar. Não veio cá muito, nestes 5 anos que já aqui passo, mas não posso censurá-la por isso; tenho é que agradecer-lhe ainda vir uma vez por ano… Mas ontem, foi uma despedida. Veio dizer-me que vai mudar de país, por razões profissionais do teu pai, e que será muito difícil voltar a ver-me…; e, sobretudo, veio dizer-me que nasceste há poucos dias… mostrou-me uma foto tua, que guardou rapidamente, não fosse o meu olhar profanar essa candura…  nem me quis dizer o teu nome…mas só o saber que nasceste faz-me dar mais valor a cada dia que aqui vou passar …

Saio daqui a 20 anos (!) … quando estiveres na idade em que achas que o mundo é todo teu… e embora provavelmente nunca te possa dizer estas coisas ombro-a-ombro, em confidência de avô, escrevo esta carta à tua mãe, na esperança que ela ta possa dar, quando fizeres 20 anos. Se ela nunca te disser que estou preso, não lhe leves a mal, os crimes que cometi são indizíveis, e percebo que ela queira criar raízes novas…

Gostaria apenas de te dizer, se te servir de consolação pela tristeza de teres um avô assim, que já me arrependi muito, muito, muito, de tudo o que fiz, que mereço cada dia que aqui passo…

Estando preso, gostaria apenas de te falar da verdadeira liberdade…que está em saber escolher… é que não somos obrigados a seguir o caminho dos outros, podemos escolher, mesmo as pequenas escolhas do dia-a-dia, e eu não percebi isso a tempo…usei mal a liberdade com que nasci, com que nasce qualquer criança, como tu agora nasces…livre;

Por favor…Não Estragues Tudo, Ouviste? … como o teu avô!

Nunca É Tarde, Ouviste?!

os amanhãs que cantam

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Ouço-os mudos

esses amanhãs que cantam

nem sons vagos e roucos

nem sons doces e melodiosos

ouço-os mudos ainda

mas sei que estão lá

cheios de canções que não conheço

de um mundo que não vejo

mas que peço

e sei que lá está

essa toada

embalada

que encanta

esses amanhãs que me aguardam…