o frango

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O apresentador apresentava.

Dum lado, uma equipa de mãe e filha, trajadas a rigor, que um avental a preceito sempre ajuda à organização da bancada.

E do outro, um pai e um filho, trajados a preceito, que o rigor desfraldado de uma camisa de flanela aos quadrados sempre ajuda a estar mais à vontade.

Os concorrentes concorriam.

Uma receita de frango, com reminiscências de uma antiga receita da avó, que ficou famosa num almoço de noivado. Bem, ficou também na lembrança a toalha de renda manchada pelo vinho tinto, entornado de tanta emoção.

E outra receita de frango, com sabores da Ásia, que o tio Manuel esteve por lá alguns anos, e incutiu em toda a família o gosto do gengibre e dos cominhos e do côco. Terão tido também alguma influência aqueles olhos rasgados que recordava com saudade.

Os pacientes impacientavam-se.

Sentados nas suas cadeiras, padeciam os utentes, e a televisão da sala de espera não se calava com o frango. E que falta de tacto, o frango a passar à hora de almoço. E nunca mais chega a vez, e o concurso do frango não se cala… E vão chamando para TAC, ressonâncias, ecografias…

O estômago, prestes a entrar em revolta, ou em convulsão, ou mesmo em greve, lateja agoniado.

Finalmente, chega a tão esperada pergunta de acesso ao exame, de libertação da prisão da sala do frango: Minha senhora, há quantas horas está em jejum?!

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vera

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Ontem vi-te a espreitar…
Por estes dias, costumas andar por aqui, a rondar, a rondar, a ver se chegas no momento oportuno, e onde te hás-de instalar. Vens de longe, carregada dos anseios que te vão dirigindo à distância, mas leve, feliz pelo que vais trazer.
E ontem, vi-te a espreitar atrás de uma árvore, e depois corrias para trás de outra, e de outra, e brincavas contigo própria, saltitando. Era tal o afã de chegares, que nem parecias cansada, como se o teres atravessado um longo território gelado não te tivesse esmorecido o ânimo.

Lá estavas atrás da árvore, via a tua saia de chita, rodada, rodeando o tronco, a querer chegar mais depressa que tu. E entre saltita e esconde, prende-se a saia num ramo, e desse pano de chita se desprendem as flores. Vão-se dispersando pelo verde, e em pouco tempo se atapeta a terra. Olhas e ris-te, do gozo das cores e da vida. Saltas entre as pedras, a terra e os canteiros, e ao esvoaçar o teu cabelo, crias uma suave brisa fresca que transporta o cheiro das alfazemas. Vais até ao regato, e com as mãos de água salpicas o ar, e esses aguaceiros refrescam os novos dias. Reflete-se o teu rosto na água límpida e dessa luz se criam arco-íris de esperança. E vais ficando…

E vão passando os dias… e vais ficando… e vão passando os dias… e vais prevendo que, como habitualmente, se aproxima… quase o imaginas já ao longe… aquele galope vigoroso. À mão esquerda, um galope certo, musculado, que faz estremecer quando ressoa em voz forte mas terna… Vera…Vera… Não que assuste, mas como que se impõe… O bater dos seus cascos vai pisando as flores, que vão regressando à terra, o sacudir vigoroso das suas crinas cria um vento forte e súbito, um bafo quente, de sul. Atravessa abruptamente o regato, e criam-se nuvens cheias e uma tempestade repentina. Resfolega de contentamento aquele cavalo grande, possante, imenso, da cor de um sol poente…

Sabes que tens o teu tempo, que é de partir para outros campos. Rodopias na tua saia de chita, levantas a tua mão brilhante como um cristal, acenas e vais dizendo… adeus, bem-vindo, Verão…

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um Natal inclusivo

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Vejo-o levantar o braço direito, e a mão aberta cede a vez, convidando o coro a cantar. Pequeno e habitual gesto, dir-se-ia, e, contudo, esse habitual e pequeno gesto levantou um aplauso gigantesco pela sala. A seguir ao seu solo, no melhor das suas capacidades, entrou o coro, no melhor das suas capacidades. Tenho ideia que seria a “Noite Feliz”, mas independentemente da peça que fosse, não havia dúvidas quanto à felicidade daquela noite.

A primeira canção tinha sido “The little drummer boy” cantada pelo coro e acompanhada ao tambor por três elementos de uma das associações. Um ritmo certo, caloroso, em que em cada batida se podia adivinhar o grau de empenho de quem ensaiou e de quem quis colaborar, feliz por ter tido essa oportunidade.

Aguardava sentado, controlando a ansiedade própria das estreias e dos espectáculos, o resto do grupo, que, quando chegou a sua vez, se dirigiu para as suas posições de actuação. Em meia-lua, talvez 10 elementos, no meio deles o maestro, e à sua frente a técnica de apoio, que servia de guia para os gestos que acompanhavam a peça. Uns gestos mais assim, outros nem tanto, umas frases mais perceptíveis, outras menos, mas o coração canta mais alto, e ouve melhor, e nele cabem todos os gestos de amor.

Atrás de toda esta cena, como pano de fundo, e ao fundo da Igreja, olhava-nos Jesus do sacrário, feliz! Podíamos vê-Lo nas caras comovidas e felizes dos elementos do coro “normal”, nos sorrisos abertos e felizes dos elementos do “coro especial”, no espanto e contentamento feliz da assistência deste concerto inclusivo. E, quase sem saber porquê, automaticamente sorríamos, porque a felicidade contagia.

No final do concerto tive oportunidade de ir dar os parabéns ao maestro, pelo trabalho duro que tinha sido ensaiar o seu coro habitual e os elementos das associações (de paralisia cerebral e de reabilitação) que tinham colaborado nesta iniciativa. Dirijo-me àquele homem, começamos a falar, mas não foi fácil encontrar os seus olhos; à frente, estava uma cortina de água cristalina, transparente, fresca, e lá atrás, num fundo do seu ser, estariam os seus olhos, à procura de alguma coisa que agora começava a encontrar. Aquilo que, eventualmente, tinha surgido como um desafio, com a falta de medição correcta que a distância inicial confere aos acontecimentos, tinha passado por horas e horas de tentativas e persistência, de alegria e falta dela, mas tinha finalmente resultado neste nascimento. O que tinha aprendido tinha largamente compensado toda a experiência, e isso era, por si só, já Natal.

espanta-espíritos

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Um leve som metálico chega de longe, trazido pela brisa morna e densa de um final de tarde de setembro. Sinos?! Pára a brisa, e o mundo vagueia num torpor quente e pesado. Param os sinos?! Apura-se o ouvir, e assim chega de longe um tinir metálico a vários tons. Retoma a brisa, e com mais clareza vão chegando os sons, nessa espécie de massa de ar rasteira à escala do campo louro. E talvez os espíritos se vão afugentando com o tropel de badalos que vem ecoando cada vez mais perto, mais perto, até se verem bem os chocalhos do rebanho… uma massa de tom creme-sujo, ou cinzento cor-de-rocha, uma nuvem fofa de quase-lã que se aproxima. E com essa brisa, e com o tinir dos espanta-espíritos da planície, vêm também as palavras cheias de Juan Alfonso García, nos seus “Amarillos”:

Toda la tarde se encendía,

dorada y bella

porque Dios lo quiso.

Toda mi alma era un murmullo

de ocasos, impaciente,

de amarillo.

um mundo em papel… /a world made of paper…

Imagem

Imagens das ruas de Redondo (“Ruas Floridas 2017” – 29 jul a 6 ago), em que TUDO é feito em papel.

Works of art made of paper.

 

 

 

 

 

 

Consultar a página da CM Redondo:

http://www.cm-redondo.pt/pt/site-acontece/Noticias/Paginas/Redondo-encerrou-Ruas-Floridas-2017.aspx

 

 

a trovoada

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“Mãe, que barulho é este?”, pergunta a menina, surpreendida com o som da terra e do céu. Caiu-lhe, do susto, o brinquedo das mãos, a boneca de panos coloridos, das cores vivas da terra e do céu. Caíram 4 goiabas no pátio, como se um vento forte as tivesse abanado, um vento que não soprou. Há um esvoaçar de pássaros que voam ao desnorte, no volteio de uma dança de uma música que não tocou. Não chove, e as nuvens que virão trazer a chuva da tarde estão ainda num celeste e etéreo pensamento longínquo.

Apanha a boneca e corre para dentro de casa, numa correria, numa fuga de um som que não conhece e de que nem desconfia. “Mãe, que barulho é este?”

Estalidos…repetidos…secos…fortes…graves…duros…metralhadoramente sincopados…

Pega-lhe a mãe e, aninhando-a num sossego de colo, virando-a de costas para a janela, vê ao longe, para lá da bolanha, através dos vidros, num baço céu azul agora enfarruscado, uma coluna de fumo negro, castanho, queimado, que vai invadindo descaradamente o ar… e apertando-a como se lhe pudesse acrescentar um fôlego de vida, responde: “… é uma trovada, minha filha…”.