Monthly Archives: Janeiro 2017

dois

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– Boa tarde, Varela, não espera encontrá-lo aqui…

– Boa tarde, Pereira, não sabia que tínhamos este amigo comum…

– Pois é, já conheço o Miguel há muito tempo…

– Miguel? Sabe, costumo tratá-lo pelo primeiro nome, estou mais habituado a tratá-lo por João; sim… também já somos amigos de longa data.

– … mas o primeiro nome é Miguel… Miguel João…

– … não… tenho a certeza que é João Miguel…, que um dia lá na livraria ele pagou com multibanco e eu vi escrito no cartão… foi pouco depois da mulher ter morrido…

– Mulher? Mas ele é solteiro…

– Homem… que confusão! Estaremos a falar da mesma pessoa?! Ele deu-me esta morada… ; quando cheguei ele não estava, a pessoa que abriu a porta disse que ele tinha ido ao supermercado buscar cerveja e já vinha…, para eu estar à vontade e vir até ao jardim…

– … pois, disseram-me o mesmo… e por aqui estou… à espera…

– … mas vamos lá ver… estamos a falar do mesmo amigo, que é engenheiro numa firma alemã, e que passa muito tempo em viagens?

– Bem… acho que o único ponto comum é o tempo em viagens… o Miguel que eu conheço é desenhador numa empresa de publicidade…

– Mau! Há aqui alguma coisa estranha… Ou são dois gémeos, ou então temos dois em um… sei lá… uma coisa qualquer de dupla personalidade…

– Apre!… nunca me pareceu nada estranho, quando ele ia lá à barbearia cortar o cabelo…

– Meu caro, acho que estas coisas não se vêem pela raiz do cabelo…

Agora me lembro que ele comprava muita coisa de Fernando Pessoa…

– Olhe, parece que está a chegar alguém…

– … João!…

– … Miguel!…

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a promessa

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AAN. Sim, eles tinham avisado, desta vez acertaram. De facto, verificara-se um arrefecimento nocturno mesmo acentuado. A manhã parecia querer começar, mas o nevoeiro baixo parecia não querer deixar. Saíra para a rua, porque já não os aguentava mais. Tontos de tanto comer e beber, zonzos de conversas leves de festa de passagem de ano, inconsistentes de tanta promessa – … agora é que era, ia deixar de fumar… este ano é mesmo, começo amanhã a dieta… hoje não, só amanhã… mas agora é hoje, ou já é amanhã?… este ano mudo de vida!… mas será que pensava que a vida se muda sozinha? não percebia que para mudar de vida era preciso mudar-se a si próprio?…

Sabia-lhe bem o ar fresco, mas ainda assim puxou o cachecol cor-de-mel mais para o pescoço… era este o único que tinha, e tinha-lhe sido dado por alguém especial, não o queria deixar abalar com o vento, ou com a inclinação inata que tinha para perder tudo em todo o lado. O que procurava neste passeio, neste começo de dia de novo ano? Fugir, sabia que fugia de qualquer coisa, mas procurar, não sabia bem o que procurava.

Ouviu uns latidos e uma algazarra de crianças… têm uma fonte infinda de energia, e não passaram uma estupidificante noite em vão, o que o fazia sentir quase que uma saudável inveja… e saudade… saudade de brincar na rua, em estado de segura inconsciência despreocupada… até… pronto, lá vem este pensamento outra vez… quando iria livrar-se dele… tanta auto-análise, tanto auto-conhecimento, tanto auto-buscar-se em sítios onde não estava e nada havia… e o resultado era sempre este… um vazio que o enchia de si próprio e que resultava sempre no mesmo… num pensamento de auto-comiseração que lhe engrandecia o ego e lhe criava um torpor momentâneo de alívio e nada mais…

E de repente, um atabalhoamento, uma bolada, um tropeço, um cão e uma criança, um encontrão e uma queda, um sem-querer, uma desculpa, um levantar-se do chão, e um fixar o olhar… cabelo escuro, sem tempo de pentear, que o tempo de brincar urge, e aquele olhar… normal, num rapazinho normal que brincava com o cão… mas aquele olhar, escuro, fosco ainda de ramelas, que o encheu, era um olhar normal, um olhar que não tinha mais que a verdade de um olhar de verdade …

Tonto da queda, ou da descoberta, zonzo por não saber se conseguia encarar este facto, inconsistente da novidade recente, levantou-se quase trémulo… percebeu que andava à procura da verdade, do outro, percebeu que só isso o enchia, era isso o que procurava, o ter a coragem de sair de si e procurar o outro…

Era duro, o encarar a verdade de onde queria fugir, o deixar de se auto-engrandecer, e passar agora do ego a alter… mas sabia que o caminho era por aí… lembrou-se dum poema de Antonio Machado:

Caminante, son tus huellas

el camino y nada más;

Caminante, no hay camino,

se hace camino al andar.

Al andar se hace el camino,

y al volver la vista atrás

se ve la senda que nunca

se ha de volver a pisar.

Caminante no hay camino

sino estelas en la mar.

E o sair de si e encarar o outro, o dizer a verdade, era esse o caminho, e ia custar. Muito, ia custar muito. Mas há coisas duras na vida… também é duro levantar-se de madrugada, fazer pão, para que os outros o tenham fresco e fofo de manhã, e estar no serviço de urgência toda a noite, e mudar uma fralda mal-cheirosa,… tantas coisas que custavam, para fazer o outro feliz… o outro, que enche com aquele olhar o vazio que se teima em ter quando se pensa que o mais importante é o espelho…

Sabia agora o que tinha que contar e a quem, e embora custasse, o que era isso, perante a eternidade de uma vida? Não sabia como ia ser a reacção da outra pessoa, mas a solidez da sua decisão decerto lhe daria as forças necessárias para o que viesse… não teria descanso enquanto não lhe contasse, e o adiar era agudizar o sofrimento. Começou a contar em decrescente… 10 – a procura, 9 – o tombo, 8 – o fixar um olhar de verdade, 7 – o perceber que existe o outro, 6 – o levantar-se, 5 – o querer, 4 – o pôr-se a caminho, 3 – o encontrar a pessoa, 2 – o contar a verdade, 1 – o aguentar o que viesse, e 0 – o serenar, serenar, serenar, enfim…

Já vai em direcção ao carro, e percebe que lhe falta o cachecol… mas quem tem frio, agora que o sol começa a vencer as pesadas nuvens?… além disso, essas recordações dessa pessoa especial não o protegiam do frio, apenas o amarravam, como uma trela… e o que pode ter de especial uma pessoa que amordaça?

Primeiro de Janeiro… podia ser esse dia ou qualquer outro, era o dia em que queria mudar-se a si próprio e, só por isso, já valia a pena… Desta vez, não era uma promessa, era uma certeza!