Monthly Archives: Março 2016

o homem frio de pedra

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Ali estava deitado no chão, e ao lado o seu cão, fiel companheiro de todas as horas, mesmo destas. Hirtos, inermes, frios, de pedra. Bateria talvez a claridade do sol durante o dia, mas ajudavam as luzes a que parecesse terem alguma vida. Poderia imaginar pessoas que passassem e parassem a olhar. Durante a noite, ficavam as luzes de presença por companhia, e todo o espaço era seu. Ainda assim, assim se quedavam hirtos, inermes, frios, de pedra, porque de pedra eram, mas de noite a sua companhia era outra, sem pessoas que passassem e admirassem a obra de autor, belíssima escultura, aliás. Do lado de fora de todo aquele espaço que era seu, que mais não era que uma vitrine, um grande vidro do lobby de uma grande empresa, estava ao frio da noite, quase hirto, quase inerme, com frio, mas não de pedra, um sem-abrigo e o seu cão.

Primeiro, o choque pelo contraste da situação. A realidade de uma vida, de um coração quente, do lado de fora, e a existência de uma estátua, de coração frio, do lado de dentro, um homem deitado no chão e o seu cão. A seguir, dizer “boa noite” com carinho, dar o saquinho de comida dessa noite, e falar… do que fosse, do que quisesse, fazer companhia, estar ali…

Era 6ª Feira Santa, e era a primeira vez que ia num grupo de voluntários, numa associação que distribui comida a pessoas que estão a viver na rua. Tinha ligado a perguntar se podia ir fazer essa experiência, e enquadraram-me numa das voltas dessa noite. Explicaram-me a organização da volta e como proceder, mas não me explicaram o que iria aprender com isso, porque para isso não há palavras … que encham a alma…é só ir.

Foi longa a volta, e dura… muito dura. Os voluntários com quem eu ia eram já experientes nessas andanças e tinham já uma relação de amizade com as pessoas que iam ajudar; naquela noite tinham que levar um blusão para o senhor X, que estava a passar muito frio, um outro precisava de cobertor, outra, de uns sapatos… sabiam-se mutuamente os nomes… tratavam-se com carinho, uns e outros… e eu olhava e ia assimilando, na medida do possível.

Naquela noite, quando me preparava para ir, ia pensando no que podia dizer, e que mensagem gostaria de lhes transmitir, por ser época de Páscoa. Imbuída de um espírito de matriz cristã, tinha pensado desejar a cada um os votos de uma Boa Páscoa, mas na realidade foi-se-me esbatendo esse objectivo, talvez por receio de algum me retorquir qualquer coisa como: “acha que posso ter uma boa Páscoa, a dormir aqui ao frio?!”, e calei-me.

Chegámos a um dos últimos pontos daquela volta, e dois ou três voluntários fomos ter com dois vultos que estavam estendidos no chão, num vão de uma entrada. Uns cartões assentes no chão de mármore faziam de colchão, eventualmente um velho saco-cama ou um cobertor seriam o aquecimento que tinham, e caso chovesse, dificilmente não se molhariam. Dirigi-me a uma das pessoas, que se soergueu, e ficou sentada à minha frente. Apresentei-me e começámos a falar. Era um jovem, de cabelo encaracolado, andaria talvez pelos vinte e poucos, ou talvez menos, que a vida de rua apressa a idade. Dei-lhe o saquinho da comida, e perguntou-me o que tinha dentro o pão. Disse-lhe que eram duas sandes com doce, uma peça de fruta e leite (e não lhe disse que os donativos não tinham sido muitos e que naquele dia não tinha dado para mais). Tirou uma das sandes e foi confirmar. “Eu não lhe ia mentir”, pensei, sem perceber. Ao mesmo tempo, justificou: “eu não percebo como é que há pessoas que hoje comem carne!”. Estarreci, e caso eu não tivesse percebido bem, repetiu as mesmas palavras: “eu não percebo como é que há pessoas que hoje comem carne!”; mas eu tinha percebido à primeira, tinha percebido muito bem, até bem demais. Tinha percebido que aquele homem que ali estava ao frio quis, por amor, fazer o mesmo jejum e abstinência de 6ª Feira Santa que outra pessoa, no quente da sua roupa e casa, faria. Embatuquei. Não sei de que falámos, nem se falámos muito mais do que algumas frases, até porque eu tinha ficado em estado de não dizer coisa com coisa. Estava de cócoras, ou talvez de joelhos, à sua frente, e os nossos rostos estavam à mesma altura, uma vez que ele se encontrava sentado no chão, mas na realidade poderia curvar-me ante a envergadura desse homem, inteiro, completo, que conseguia manter na adversidade os princípios em que acreditava, e que percebia que o verdadeiro jejum era a doação de si próprio, nas circunstâncias que fossem.

Frente a frente, pude dizer-lhe em letras grandes: “BOA PÁSCOA!”, e ele, com propriedade, respondeu com letra cheia: “BOA PÁSCOA!”.  

 

Cheguei a casa e bebi uma caneca de leite quente. Em paz.

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não partas o coração

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peça de Martinha Soares        http://www.facebook.com/mmartinha.soares

 

 

tens o tamanho certo, coração,

cabes-me na mão

 

aperto-te como se apertasse o vento

e pulsas de vermelho vivo e forte

abro a mão, liberto-te e num momento

ofereces-me seiva nova e nova sorte

 

tens o tamanho certo, coração,

o tamanho da minha mão.

 

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peça de Martinha Soares   http://www.facebook.com/mmartinha.soares

Os primeiros raios de sol por entre os cajueiros…

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Nascer do sol 3

Os primeiros raios de sol por entre os cajueiros…nem consigo descrever…eram diferentes de todos os primeiros raios de sol que já tinha visto…

Talvez da aventura, talvez do cansaço de ter caminhado quase toda a noite…aqueles primeiros raios de sol por entre os cajueiros que ladeavam o caminho agreste sabiam à vida…

Tínhamos saído já de noite, talvez por volta das 9, noite escura, e seríamos talvez 100, 150, 180, não sei…muitos, por essa estrada de terra batida de talvez 15, ou 18, ou 20 kms, não sei…muitos. Já a tinha feito de carrinha, e essa viagem, em estrada seca, com sulcos fundos das chuvadas fortes do ano anterior, já tinha também sido uma aventura…aos altos e baixos, aos baixos e altos, do mais irregular…um arranca-arranca constante, à procura do melhor troço de terra para 4 pontos de apoio…

E naquela noite, naquela escura noite, fazia-mo-la a pé, em peregrinação para Geba. E era tão escuro…para os olhos de um branco… e vai ficar-me para sempre o espanto de como os olhos de quem não está habituado a ter luz atrás de um clique na parede vêem muito melhor no escuro. Não foi à toa que um dia me disseram: “branco ka pudi anda no scuro!”. Tinha razão, quem vive numa redoma tem mais dificuldade a habituar-se à natureza como ela é, quando o dia é dia, e a noite é noite.

Cantávamos, rezávamos, caminhávamos…também descansávamos de tempos a tempos, e nessas alturas tinha um anjo da guarda, um jovem de coração grande que ficava por perto quando eu me sentava, cheia de medo das cobras que pudessem andar por ali. E recobrávamos algumas forças, e tornávamos a caminhar. A felicidade que tinha dentro equilibrava a par com os primeiros raios de sol por entre os cajueiros…

Ia ser um dia de festa. As pessoas da tabanka tinham morto uma vaca para um belo almoço depois de celebrada a Missa, e a festa começava já, quando a miudagem chega ao rio e começa a tomar um merecido banho refrescante. Miúdos a entrar e a sair da água, risos, gritos, brincadeira, até a água rejubilava de gozo, de poder servir assim a alegria,…………………………………………………….

e há um que não volta da água…….. há um que não volta…….. que não volta……..

espera-se, o meu jovem-anjo-da-guarda vai-me pondo a par, pergunta-se uns aos outros, busca-se, e a verdade cai rotunda… não aparece… não volta…

Isso é possível?! ou justo?! ou credível?! E é esse o fim duma peregrinação de fé?! Como acreditar, como encaixar essa realidade? E não há nadador-salvador, não há mergulhadores, não há ambulância, não há nada… apenas uma carrinha de caixa aberta para levar o corpo, que acaba por aparecer.

E fica a tal pergunta do porquê, a tal que não tem resposta à nossa escala, porque é sempre considerada do ponto de vista de quem fica, e não do ponto de vista de quem vai e do ponto de vista de quem o fez ir. Por algum motivo, esses três pontos de vista levam-me a pensar nas três faces de um triângulo, e a partir daí a memória vai ter às aulas de física (finalmente, uma utilidade…), à decomposição da luz num prisma, a formação do arco-íris, e comparo com a passagem da luz “normal” e tida como garantida, da nossa existência, por acção do Deus-desconhecido, para um  arco-íris do outro lado.

E o tal vazio inicial do choque e da incredulidade vai dando lenta e dolorosamente lugar, ao longo do tempo, a essa aceitação de que Deus sabe mais…, esse Deus que criou a luz, a água, o arco-íris, os raios de sol, os cajueiros, o Senhor da natureza, …

Para quem fica, é sempre má altura; mas não saberemos nunca, até ao fim dos nossos dias na terra, o que teria sido a vida daquele jovem, por um lado, e, por outro, o impacto e as repercussões que esse acontecimento teve na vida de cada um dos que ali estavam.

E, ainda que não o perceba com o meu entendimento de agora, porque de facto não consigo, acredito que o nosso Pai-comum levou aquele jovem no seu melhor momento, no momento em que ele, sem o saber, estava pronto, a ver uma outra perspectiva dos primeiros raios de sol por entre os cajueiros…

cajú 3cajú 2

cajú 1

 

Hera

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Hera assinado

Aguarela de João Laia

 

Sobe pela parede velha do muro

cinzento, antigo, gasto,

e ainda assim ampara,

era tal como o recordava,

robusto e forte,

trepava por ele, ondulante, esguia,

tremelicante como agulha que indica o norte

viçosa essa hera

que enchia a casa

de paz, de verde, de alegria,

ante-chegada e prenúncio de primavera…