entre vãos

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Hum…al al moço com os heterónimos

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No contexto de um projecto de Intervenção Cultural e Artística na Comunidade,  temos vindo a desenvolver diferentes tipos de exercícios, que se traduzirão, em Julho, num resultado final que consistirá numa performance em espaços menos convencionais. Num dos ensaios, fizemos uns exercícios de criação de heterónimos. Mais tarde, fui almoçar com dois colegas, tendo o resultado sido este:

 “Hum… que que quer águua, São? – Pergunta Pipe. Joana, por ser mais rápida, responde de rompante: – “Obrigada, João, quero sim”, enquanto atende o telemóvel. Ri-se com a voz do outro lado, e ninguém se aperceberia de quão difícil tinha sido o seu dia ontem, pois tristezas não pagam mágoas, já que dívidas felizmente não tinha.

São observa atentamente as suas lulas de caldeirada que, apesar de estarem boas, não vinham acompanhadas de salada. Pede um bocado de alface do prato de Isabelle, que acede de má vontade, o que se notou no modo brusco como lhe passa o prato pela frente. Nem de propósito, neste gesto contrariado os longos cabelos de Isabelle aproveitam para se banhar no molho arruivado da caldeirada que Joana come com o deleite do costume, tudo se confundindo num mesmo tom. Hum… cabelos “ao creme de marisco”… pensa Pipe, lembrando-se de um restaurante a que tinha ido há uns anos. Tinha sido quando saiu do hospital, depois da terceira operação às pernas. Não tinha resultado, continuava com o seu andar desmanchado, mas já estava habituado, e via que agora os seus amigos também já tinham algum carinho por essa sua característica. De qualquer modo, isso não influenciava em nada o seu apetite, e hum…o creme de marisco que tinha comido na altura vinha-lhe de vez em quando à ideia, como agora, embora hoje tivesse que se contentar com umas tiras de choco fritas, que também se comiam bem. Com algum receio, pergunta a Joana se quer provar, mas São, certa do seu apetite demolidor, intervém dizendo que tinham que se despachar para ir ao jardim. Entretanto, telefona à filha a perguntar alguma coisa que tinha que ser mesmo nessa altura, entre apanhar as argolas de lula que boiavam no meio do caldo, e contar um episódio passado com a Joana, quando esta limpava os vidros lá em casa na semana passada.

Hum… decorre o telefonema e Pipe já não percebe se a Sofia é a cadela que é heterónimo de Alfredo, o gato, ou o contrário. Ou se Isa é mesmo a filha da São, ou é heterónimo de um dos filhos de Joana, que afinal existe mesmo. Hum… mas essa tem os miúdos pequenos, ainda não têm telemóvel, matuta Pipe.

Paula pergunta ao João como vão os seus trabalhos de pintura, e ao vê-los Isabelle espanta-se com tanta arte. Maquinalmente, devolve o seu olhar para o prato, já vazio da alface que tinha mudado de paragem, e vai afastando com o garfo os quadrados de batata frita e as amêijoas. As amêijoas… lembram-lhe um concheiro que tinha aparecido numa escavação no sul de Itália. Sente o cheiro de tabaco, mas hum…Pipe não tinha ainda acendido o cachimbo, que João lhe tinha oferecido no Natal. Talvez o fizesse mais tarde no jardim. Do paraíso, ou da Celeste, ou de quem fosse…

Confuso?! Nem tanto. Talvez o mais difícil tivesse sido sentar seis pessoas em três lugares, ajeitando braços e pernas, mas lá couberam. Aliás, não consta que Fernando Pessoa ou Pedro Proença tivessem alguma vez sido expulsos de algum restaurante por almoçarem com os seus heterónimos, nem pago mais caro por isso”.

 

e tu…

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Pinga, pinga, da janela, do beirado, do telhado,

a chuva chega finalmente, de repente,

o frio regressa, instala-se sem pressa,

o vento entoa um assobio, desafinado.

 

E tu, que atravessas a rua cheia de poças

de água turva e lamacenta,

mostras nesse sorriso

tosco, rude e ternurento

por me ver, tudo o que preciso.

E a vida inteira suspensa

no abrigo desse olhar

descansa agora da correria

e o tempo da chuva já não importa

neste tempo que vai brilhando devagar.