bem-me-quer

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flores hospital

canteiro no Hospital do Espírito Santo (edifício Patrocínio) – Évora

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e tu…

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Pinga, pinga, da janela, do beirado, do telhado,

a chuva chega finalmente, de repente,

o frio regressa, instala-se sem pressa,

o vento entoa um assobio, desafinado.

 

E tu, que atravessas a rua cheia de poças

de água turva e lamacenta,

mostras nesse sorriso

tosco, rude e ternurento

por me ver, tudo o que preciso.

E a vida inteira suspensa

no abrigo desse olhar

descansa agora da correria

e o tempo da chuva já não importa

neste tempo que vai brilhando devagar.

sapatos

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Em calçar um sapato de cristal,
nada banal, nem casual,
hesitava.Ou um ao revés,
quando troco a cabeça com os pés.Ou um sapato de mobile,
para dias em que ando a mil.Ou mesmo um sapato de dança,
que me lembra um livro de fadas que li em criança.Ou ainda um anti-barata,
daqueles que ata e desata.Finalmente, pensada a difícil escolha,

sai um sapato feito de rolha,


de salto de cristal nada banal,
que também não anda,
mas também não faz mal!

Fotos tiradas no Museu do Calçado, em S. João da Madeira.
http://www.museu-do-calcado.pt/

 

a corda da roupa

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Meias, meias, meias, mais meias, o pé 41 do Ricardo, o meu 39, o 26 da Inês e estas mini do bebé. E pensar que o meu marido e eu nos aborrecemos hoje de manhã por causa de umas meias… E ficámos assim, a meio da conversa, a meio do bom humor, a meio do que vale a pena.

Enquanto as estendo, olho para o vizinho de baixo que rega as plantas no seu quintal. Viúvo. Penso se alguma vez terá discutido por causa de umas meias. Talvez sim. Mas, pensando na sua mulher, no seu sorriso que recordo como doce e sempre atento aos pormenores, não me parece que alguma vez tenha discutido por causa de umas meias.

Deixo cair uma meia azul da Inês que, apanhando uma brisa momentânea, se instalou perto da roseira que o Sr. António regava. Olhou para cima, e sorriu, e parecia quase-quase o sorriso doce e sempre atento que tinha a sua mulher. “Sabe, agora fez-me lembrar uma coisa… uma vez a minha mulher aborreceu-se comigo por causa de umas meias… veja lá, por causa de umas meias, imagine… que saudades tenho dela, até desse episódio das meias. Éramos novos, e ainda dávamos importância às meias. Mas, olhe, na realidade, tudo vale, e o que nós nos rimos depois com isso das meias”.

“Ah, sim … pois… hum… às vezes há assim coisas dessas, mas tudo passa…, eu já aí passo a buscar a meia…”. Embatuquei. Pensei novamente no sorriso doce e atento aos pormenores que eu recordava, e dei-lhe mais valor. Porque era um sorriso maduro, um sorriso que resultava do delapidar de muitas coisas, um sorriso que resultava do limar de arestas, um sorriso que queria mesmo ser sorriso, ser doce, e ser atento aos pormenores. Que era o sorriso que o Sr. António também agora tinha.

Lembrei-me de fazer um jantar que fosse prático, para o Ricardo não gastar depois muito tempo a arrumar a cozinha, e poder ter tempo para ver um episódio completo da sua série favorita. Seria um mimo, um “pequeno pormenor” e, à minha maneira, pedir desculpa pelo episódio das meias.

Toca o telemóvel, e era o Ricardo a dizer que logo saía mais cedo, ia buscar a Inês à escolinha, e depois apanhava-me em casa, e ao bebé, para irmos ao jardim, e comer um gelado. Era um mimo, um “pequeno pormenor” e, à sua maneira, pedir desculpa pelo episódio das meias.

Talvez fosse esta a nossa maneira de irmos arranjando o nosso sorriso doce e atento aos pormenores, talhado nos pequenos incidentes do dia-a-dia.

Logo, quando saísse, iria buscar a preciosa meia azul com o desenho do monstro das bolachas, que a tia tinha oferecido nos anos à Inês. Tinha sido uma epopeia convencer a Inês que o monstro das bolachas só come bolachas e não pés, mesmo quando está com a boca aberta estampada nas meias, mas agora, que essa situação estava resolvida, eram as suas meias favoritas, e nem pensar em perdê-las, senão era uma cena…

Meias… monstros das bolachas… sorrisos… pormenores… Ricardo… eu…

lançamento – “A personagem incompleta”

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Caríssimos,

 

tenho o grande gosto de vos convidar para o lançamento de um livro, com texto meu e ilustrações de João Paulo Laia.

Trata-se de um pequeno conto…

 

O lançamento será em Lisboa, no dia 1 dez (Palácio Baldaya, 15h) e haverá posteriormente duas apresentações:

Évora – dia 13 dez, na Biblioteca Pública, às 18h30, com um apontamento musical do Coral Évora

Beja – dia 15 dez, na Casa da Cultura, às 18h00, com a exposição dos desenhos originais do livro

Gostaria de vos ver num destes três pontos de encontro!

A Personagem Incompleta-Lançamento

o rapaz da glicínia

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Esperava. E desenhava. No seu caderno de improviso.

Desenhava a glicínia e a sua espera.

A glicínia, um tronco alto que subia até ao primeiro andar, grosso como uma fortaleza tosca, as flores em cachos vibrantes, ramos que se entrelaçavam livremente nas guias, dando alguma sombra ao pátio.

A sua espera, uma coisa que não sabia bem explicar, um sentimento novo que não fazia parte dos seus alfarrábios, e não entrava nos seus cânones habituais. Desenhava a sua espera, ocupando o tempo, ansiando por uma coisa que não sabia, por uma pessoa que verdadeiramente não conhecia.

Olhava atentamente o pátio, absorvendo a sua estrutura, materiais, mas sobretudo a sua vivência, a calma que transmitia às pessoas que se iam sentando nas mesas para os seus encontros e conversas, as cores claras das paredes e o contraste das roupas coloridas de um dia de Maio a chamar o bom tempo. Os encontros e conversas. Que lhe diria, à pessoa de quem estava à espera, a quem não sabia o que dizer, porque não a conhecia? Pousou a caneta. Olhou para o portão do pátio, como se este estivesse aberto de par em par propositadamente para a sua chegada, mas nada. Havia de chegar. Era assim que também achava que estava, de braços abertos para a receber e abraçar. Continuou a desenhar.

De repente, de mansinho, entra pelo lado direito do portão a pessoa desconhecida de quem estava à espera, que o busca com os olhos atentos, à procura duma pessoa que também não conhece. Descobre-o numa mesa perto da parede, desenhando, e nem sabe se o há-de despertar do seu sonho desenhado. Fica a olhar, como se o soubesse sempre assim.

O rapaz da glicínia levanta os olhos, encara a pessoa que se aproxima, de quem estava ansiosamente à espera, e nem se levanta. Nem abre os braços de par em par. Não consegue, ou se calhar não quer. Pára. Apenas olha para a túnica que ela trás vestida. Larga, fresca, cor de glicínia.

o frango

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O apresentador apresentava.

Dum lado, uma equipa de mãe e filha, trajadas a rigor, que um avental a preceito sempre ajuda à organização da bancada.

E do outro, um pai e um filho, trajados a preceito, que o rigor desfraldado de uma camisa de flanela aos quadrados sempre ajuda a estar mais à vontade.

Os concorrentes concorriam.

Uma receita de frango, com reminiscências de uma antiga receita da avó, que ficou famosa num almoço de noivado. Bem, ficou também na lembrança a toalha de renda manchada pelo vinho tinto, entornado de tanta emoção.

E outra receita de frango, com sabores da Ásia, que o tio Manuel esteve por lá alguns anos, e incutiu em toda a família o gosto do gengibre e dos cominhos e do côco. Terão tido também alguma influência aqueles olhos rasgados que recordava com saudade.

Os pacientes impacientavam-se.

Sentados nas suas cadeiras, padeciam os utentes, e a televisão da sala de espera não se calava com o frango. E que falta de tacto, o frango a passar à hora de almoço. E nunca mais chega a vez, e o concurso do frango não se cala… E vão chamando para TAC, ressonâncias, ecografias…

O estômago, prestes a entrar em revolta, ou em convulsão, ou mesmo em greve, lateja agoniado.

Finalmente, chega a tão esperada pergunta de acesso ao exame, de libertação da prisão da sala do frango: Minha senhora, há quantas horas está em jejum?!

vera

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Ontem vi-te a espreitar…
Por estes dias, costumas andar por aqui, a rondar, a rondar, a ver se chegas no momento oportuno, e onde te hás-de instalar. Vens de longe, carregada dos anseios que te vão dirigindo à distância, mas leve, feliz pelo que vais trazer.
E ontem, vi-te a espreitar atrás de uma árvore, e depois corrias para trás de outra, e de outra, e brincavas contigo própria, saltitando. Era tal o afã de chegares, que nem parecias cansada, como se o teres atravessado um longo território gelado não te tivesse esmorecido o ânimo.

Lá estavas atrás da árvore, via a tua saia de chita, rodada, rodeando o tronco, a querer chegar mais depressa que tu. E entre saltita e esconde, prende-se a saia num ramo, e desse pano de chita se desprendem as flores. Vão-se dispersando pelo verde, e em pouco tempo se atapeta a terra. Olhas e ris-te, do gozo das cores e da vida. Saltas entre as pedras, a terra e os canteiros, e ao esvoaçar o teu cabelo, crias uma suave brisa fresca que transporta o cheiro das alfazemas. Vais até ao regato, e com as mãos de água salpicas o ar, e esses aguaceiros refrescam os novos dias. Reflete-se o teu rosto na água límpida e dessa luz se criam arco-íris de esperança. E vais ficando…

E vão passando os dias… e vais ficando… e vão passando os dias… e vais prevendo que, como habitualmente, se aproxima… quase o imaginas já ao longe… aquele galope vigoroso. À mão esquerda, um galope certo, musculado, que faz estremecer quando ressoa em voz forte mas terna… Vera…Vera… Não que assuste, mas como que se impõe… O bater dos seus cascos vai pisando as flores, que vão regressando à terra, o sacudir vigoroso das suas crinas cria um vento forte e súbito, um bafo quente, de sul. Atravessa abruptamente o regato, e criam-se nuvens cheias e uma tempestade repentina. Resfolega de contentamento aquele cavalo grande, possante, imenso, da cor de um sol poente…

Sabes que tens o teu tempo, que é de partir para outros campos. Rodopias na tua saia de chita, levantas a tua mão brilhante como um cristal, acenas e vais dizendo… adeus, bem-vindo, Verão…

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